Toca o despertador.
Só me apetece partir a m#rda do telemóvel.
Lá vou eu para a minha vigésima entrevista de trabalho.
E para quê? Já sei perfeitamente o que me vão dizer quando acabar:
“Agradecemos o facto de ter vindo. Vamos proceder à análise do seu currículo e
logo que tenhamos uma resposta, entraremos em contato consigo.”
E depois passam-se meses e nada.
Ou então recebo uma mensagem no spam da caixa de e-mail a dizer:
“Infelizmente não foi selecionada para a vaga. No entanto, deixaremos o seu
contato na nossa base de dados, para eventuais contratações futuras.”
Não vou. Que se f#da.
Ou vou e desta vez sou sincera?
Apresso-me a sair da cama, lavo os dentes a correr, visto uma roupa qualquer
do dia anterior e saio de casa.
Chego atrasada dez minutos.
Mal entro, encaminham-me para o departamento dos recursos humanos e uma
senhora diz-me para me sentar.
- Boa tarde.
- Boa tarde.
- Está atrasada…
- As minhas desculpas, mas quando o despertador tocou, deixei-me ficar na
cama e perdi a hora. - Espero que compreenda que a pontualidade é um requisito essencial para
trabalhar conosco. - Sim, eu sei.
- Trouxe consigo o seu currículo vitae?
- Sim, está aqui.
A senhora olha para o meu CV na oblíqua e começa a fazer-me as habituais
perguntas que me são já tão familiares nestas entrevistas de trabalho.
- Então diga-me lá… antes de analisarmos o seu currículo, gostaria que me
dissesse três qualidades suas, que possam acrescentar valor à nossa empresa. - Três qualidades? Se quer ouvir que sou muito focada, muito organizada e
trabalho muito bem em equipa, posso dizer… mas estaria a mentir-lhe.
Quer a verdade ou a mentira? - A verdade, claro.
- Então se quer a verdade, porque não apresentar-lhe já os meus defeitos?
- Se assim o deseja…
- Então vamos lá… sou preguiçosa, extremamente desorganizada e entre
trabalhar em equipa ou sozinha, prefiro mil vezes trabalhar sozinha. - Compreendo… e em relação às suas qualidades?
- Sou leal, amiga e honesta.
- Muito bem… obrigada pela sinceridade nas suas respostas. Vamos então
analisar o seu currículo. - Vejo que começou por estudar design, mas interrompeu o curso durante três
anos… e só concluiu ao fim de seis anos.
Quer explicar-me este interregno de três anos? - É uma longa história…
- Tudo bem… durante este período, esteve a trabalhar?
- Sim, trabalhei.
- Em que área é que trabalhou?
- Todas as que possa imaginar.
Desde a trabalhar na copa de um restaurante a lavar pratos durante oito horas
seguidas, a trabalhar em fábricas em que me sentia um autêntico robot, a
servir às mesas com horários repartidos de doze horas, a cuidar de idosos
acamados e com alzheimer, enfim… fiz de tudo um pouco.
- Estou a ver… mas ao estar a dizer-me que teve tantas mudanças a nível
profissional, isso significa que não é uma pessoa muito resiliente nem
persistente, pois não? - Não sou resiliente nem persistente?
Se lhe contasse a minha história de vida, vinham-lhe as lágrimas aos olhos… se
quer que seja ainda mais sincera, então vou ser.
Durante estes três anos, tive que lidar com a morte do meu pai, tive que lidar
com a depressão da minha mãe e desde então tive que aprender a virar-me
sozinha.
Sabe de onde eu venho?
Venho de um lugar onde não existem escolhas, nem sonhos.
Ter conseguido entrar na faculdade pública por mérito próprio, foi a maior
conquista da minha vida!
E mesmo que tenha interrompido, é com todo o orgulho que consegui concluir
o curso.
Sei que esta minha sinceridade só me vai prejudicar e já perdi a vaga, mas
sinceramente não entendo porque é que nestas entrevistas de trabalho o que é
valorizado é apenas o tempo em que concluímos o curso, a nota com que
terminámos o curso, a idade com que terminámos… é só isso que interessa?
E as circunstâncias de vida de cada um?
São ignoradas?
Se calhar para si foi fácil. Veio de uma boa família, os seus pais pagaram-lhe o
curso, fê-lo no tempo certo e hoje é Diretora do Departamento dos Recursos
Humanos. Mas já pensou que não temos todos as mesmas oportunidades?
Já pensou que por detrás de um CV existe uma história por contar? - Não diga mais nada. Parabéns pela coragem! Está contratada!
- Depende… quanto é que me vão pagar? muito gostam vocês de escapar a
esta pergunta…
Sofia Fernandes Larcher Estudante de Pós-graduação de Direitos Humanos
2 comentários sobre “E se as entrevistas de emprego fossem mais sinceras?”
Foi interessante
Pena que na realidade é o contrário.